Drones agrícolas no Brasil expõem gargalos na regulação e na mão de obra

Drones agrícolas no Brasil expõem novo gargalo no agro

O uso de drones agrícolas no Brasil avança em ritmo acelerado, mas a estrutura de apoio e fiscalização enfrenta uma corrida contra o tempo. Enquanto estimativas privadas apontam mais de 60 mil equipamentos no país, o cadastro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) reúne pouco mais de 13 mil declarados para atividade aeroagrícola. Além disso, o setor lida com a escassez de profissionais qualificados e acompanha a revisão das regras federais.

Esses números não significam que dezenas de milhares de equipamentos estejam necessariamente irregulares, pois registros oficiais e projeções de mercado utilizam critérios distintos. Contudo, a divergência evidencia a dificuldade de mensurar com exatidão o tamanho da frota em operação e de fazer a infraestrutura acompanhar essa evolução tecnológica.

Evolução tecnológica e escassez de operadores

A transformação é visível tanto na quantidade quanto na capacidade dos equipamentos. Em 2015, modelos que transportavam 10 litros de defensivos já eram considerados grandes, mas hoje existem versões capazes de carregar até 300 litros. Esse salto veio acompanhado da dificuldade de encontrar pessoas preparadas para pilotar as máquinas.

Raffaela Moysés, sucessora e produtora na Fazenda Bonnanza, em Campo Alegre de Goiás, relata que já é necessário buscar operadores de drones vindos de outras áreas para trabalhar nas plantações. “Há uma lacuna de qualificação profissional específica”, afirmou. A percepção também aparece em levantamento do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Segundo Cláudio Oliveira, diretor operacional da entidade, pesquisa realizada com mais de 40 empresas mostrou que 85% delas não encontram profissionais qualificados para operar veículos não tripulados.

Para Oliveira, a adoção dos drones ocorreu de maneira especialmente rápida no país e a formação profissional não avançou na mesma velocidade.

Divergências nas estimativas da frota nacional

Enquanto a Anac registra pouco mais de 13 mil drones para uso aeroagrícola, Vicente Cornago, da Synerjet Corp, afirmou durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF) que a frota total poderia superar 60 mil aeronaves. Já o consultor Eugênio Schroder projetou cerca de 35 mil equipamentos em 2025, dado divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Cornago estima ainda que o Brasil alcance 115 mil aeronaves não tripuladas até 2030.

Essas diferenças exigem cautela na interpretação, pois as bases de dados não medem exatamente o mesmo universo. Ainda assim, o cenário revela a falta de uma fotografia unificada sobre o setor.

Atualização regulatória e debate no Congresso

A expansão pressiona a estrutura normativa. O uso de aeronaves para aplicação de insumos e sementes é regulamentado pelo Mapa, exigindo registros no SIPEAGRO, regularidade na Anac e o Curso para Aplicação Aeroagrícola Remota (CAAR). O ministério abriu uma revisão da Portaria nº 298, de 2021, com trabalhos previstos até o primeiro semestre de 2026.

A pauta também chegou ao Legislativo. Em março de 2026, o Senado aprovou uma audiência pública sobre o tema, impulsionada por justificativas que mencionavam dados não oficiais de irregularidades. A iniciativa demonstra que a fiscalização entrou de vez no radar institucional.

Paradoxo da automação e perspectivas futuras

Irônica e paradoxalmente, a escassez de trabalhadores nas lavouras acelera a busca por automação. Segundo Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, há uma migração histórica de trabalhadores da produção primária para outros elos do agronegócio. Sem braços suficientes, o produtor investe em tecnologia, criando a necessidade urgente de novos especialistas.

Se a projeção de 115 mil aeronaves até 2030 se concretizar, o país precisará alinhar rapidamente qualificação, regulamentação e fiscalização para sustentar esse crescimento no campo.

Fonte: Economic News Brasil

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