O agronegócio desempenha uma função estratégica tanto na garantia de alimentos para os lares brasileiros quanto no fornecimento para o comércio internacional, mas o fim da fome no país depende diretamente da criação de empregos e do aumento da renda familiar. Essa foi a principal mensagem enfatizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) durante pronunciamento no Senado Federal, em alusão às comemorações do Dia Mundial da Alimentação.
Projeção de safra histórica e o cenário doméstico
O posicionamento da entidade surge acompanhado de números expressivos no campo. Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a safra de grãos 2025/26 alcançará 361,7 milhões de toneladas, representando um avanço de 2,6% frente ao ciclo produtivo anterior. O incremento assegura maior oferta de matérias-primas voltadas ao mercado interno, à indústria e ao fluxo de exportações.
No cardápio do brasileiro, o feijão ilustra bem esse equilíbrio: apesar de uma retração de 3,6% no volume a ser colhido, a safra prevista de 2,95 milhões de toneladas supera o consumo projetado em 2,7 milhões de toneladas. Embora os estoques exijam monitoramento constante, os dados confirmam a capacidade produtiva de suprir a necessidade nacional.
Por outro lado, o desempenho varia de acordo com cada cultura. Enquanto milho e soja apresentaram expansão, itens fundamentais como trigo, feijão e arroz tiveram recuo. No arroz, a projeção de 11,08 milhões de toneladas reflete uma queda de 13,2%, influenciada pelo encolhimento de 14% na área cultivada. A desvalorização dos preços pagos na safra anterior motivou os produtores rurais a migrarem para outras lavouras, expondo que valores que não remuneram adequadamente inviabilizam o investimento para os anos seguintes.
Exportações atingem marca histórica
No mercado global, as vendas externas do setor agropecuário atingiram o equivalente a cerca de R$ 848 bilhões em 2025 — uma expansão de 3% no valor apurado em moeda americana, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O cálculo engloba produtos florestais, fibras e alimentos.
Mais da metade desses embarques concentrou-se em três parceiros comerciais essenciais:
- China: 32,7% das compras;
- União Europeia: 14,9% do total;
- Estados Unidos: 6,7% das exportações.
Poder de compra e insegurança alimentar
Apesar do volume recorde colhido no campo, a CNA ponderou que a abundância de alimentos não é suficiente para solucionar a carência nutricional se a população não dispuser de recursos financeiros. Em setembro, os preços do grupo alimentação no domicílio avançaram 0,96%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo IBGE, interrompendo uma trajetória de três meses de deflação.
O panorama social recente reforça o tamanho do desafio. A pesquisa de segurança alimentar do IBGE referente a 2024 apontou que 18,9 milhões de residências (24,2% do total) enfrentavam algum nível de restrição alimentar. Apesar de uma melhora em comparação com 2023, com a saída de 2,2 milhões de lares dessa condição, cerca de 2,5 milhões de famílias ainda conviviam com a insegurança alimentar grave.
Infraestrutura e eficiência logística
O debate no Senado também abordou gargalos estruturais indispensáveis para fazer o alimento chegar à mesa. Especialistas alertaram que o ganho obtido da porteira para dentro pode ser perdido se não houver investimentos em ciência, tecnologias de conservação, armazenagem adequada e malha de transporte eficiente — fatores críticos principalmente para frutas e hortaliças.
A sessão reuniu lideranças e representantes da Embrapa, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, da Secretaria Nacional de Segurança Hídrica, da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem e da Rede Nacional de Agricultura Irrigada.
Fonte: O RONCADOR






