O agronegócio brasileiro vive um momento decisivo e está a um passo de assumir a liderança global das vendas externas do setor, desbancando a hegemonia mantida há décadas pelos Estados Unidos. A perspectiva de que o país finalize 2026 como o maior exportador de alimentos do planeta — apontada recentemente pelo vice-presidente Geraldo Alckmin durante agenda do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) — encontra sólido respaldo no comportamento recente da balança comercial.
Distância histórica atinge o menor patamar
Os números consolidados de 2025 mostram a dimensão dessa aproximação. As remessas do agronegócio brasileiro atingiram a marca histórica de US$ 169,2 bilhões, respondendo por 48,5% de todas as vendas externas nacionais, segundo o MAPA. No mesmo exercício, os embarques do setor agrícola norte-americano recuaram 2,8%, totalizando US$ 171,3 bilhões, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Com isso, a folga dos norte-americanos, que ultrapassava US$ 50 bilhões em 2021, encolheu para pouco mais de US$ 2 bilhões. O ritmo acelerou em 2026: dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM), baseados em números oficiais do governo federal, apontam que as exportações agropecuárias somaram US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro, avanço de 5,5% em comparação ao mesmo intervalo do ano anterior. O resultado foi impulsionado pelo primeiro semestre mais forte da série histórica, que alcançou cerca de US$ 87 bilhões, conforme análise do Radar Agro do Itaú BBA.
Os fatores que impulsionam o avanço nacional
Recordes de colheita e ganho em produtividade
A expansão é sustentada, em primeiro lugar, pela oferta crescente. De acordo com o 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita nacional deve alcançar o recorde de 361,7 milhões de toneladas, um incremento de 2,6%, capitaneado por 180,4 milhões de toneladas apenas na cultura da soja.
Além do volume bruto, o ganho de eficiência no uso do solo tem sido determinante. Estimativas conjuntas da OCDE e da FAO para o período de 2026 a 2035 indicam que a evolução da produção do país decorre principalmente da intensificação do cultivo — com destaque para a segunda safra — e não do avanço sobre novas áreas. O estudo projeta que a agricultura nacional será responsável por 61% de toda a soja transacionada no mercado internacional nos próximos dez anos, além de tomar a dianteira mundial nos embarques de algodão em pluma, superando os concorrentes americanos.
Reposicionamento geopolítico no mercado asiático
As tensões comerciais entre Estados Unidos e China também abriram espaço estratégico para a produção brasileira. Projeções do USDA indicam que as vendas agrícolas norte-americanas para Pequim devem encolher 26% no ano fiscal de 2026, caindo para US$ 12 bilhões. Em contrapartida, os compradores chineses concentraram 35% de todo o faturamento do agro do Brasil no primeiro semestre de 2026, somando aproximadamente US$ 31 bilhões — alta de 10,5% segundo levantamento setorial do Itaú BBA.
Divergências metodológicas e empate técnico
Apesar do movimento evidente, a confirmação estatística da liderança exige cautela devido às diferenças entre os critérios adotados pelos dois governos. A metodologia brasileira engloba produtos florestais, a exemplo de celulose e madeira, itens que não constam nas contas do USDA. Adicionalmente, Washington utiliza o conceito de ano fiscal (outubro a setembro), período no qual projeta exportações de US$ 179,5 bilhões em 2026, alta de 1,8%.
Caso os produtores brasileiros sustentem até o final do ano a taxa de expansão registrada até o terceiro trimestre, o país deve fechar 2026 próximo de US$ 178 bilhões. O cenário atual configura um empate técnico, variando conforme a régua estatística aplicada. Ainda que a data exata da troca de posições dependa de convenções contábeis, a mudança no eixo da produção e do fornecimento global de alimentos já é uma realidade consolidada.
Fonte: CNN Brasil






