O agronegócio norte-americano atravessa o seu pior momento em quatro décadas. Em abril de 2026, 62 famílias de produtores rurais entraram com pedido de recuperação judicial em um intervalo de apenas 30 dias — o patamar mais alto registrado desde o início de 2020. O cenário aprofunda a deterioração vista em 2025, ano que contabilizou 315 processos de quebra, salto de 46% sobre 2024. Ao todo, a dívida do setor agrícola dos EUA caminha para o recorde de US$ 624,7 bilhões, gerando uma despesa anual de US$ 33 bilhões somente com o pagamento de juros.
Falhas comerciais e dependência crônica de subsídios
Classificada pela entidade setorial Farm Bureau como a pior derrocada geracional desde a década de 1980, a crise não deriva de intempéries climáticas ou defasagem tecnológica, mas sim de decisões estratégicas equivocadas tomadas em Washington. O primeiro grande revés ocorreu no tabuleiro internacional: a crença de que a China não encontraria substituto para a soja norte-americana ruiu após anos de aportes chineses em logística no território brasileiro.
Com o embargo comercial imposto em 2025, o mercado chinês suspendeu as compras dos EUA durante cinco meses sem desabastecer suas cadeias internas. Na retomada, Pequim priorizou milho e carnes, taxando a soja dos Estados Unidos em 13%, enquanto a produção brasileira permaneceu com alíquota de 3%. Em regiões como o estado de Iowa, epicentro dos grãos, as recuperações judiciais dispararam 220% no mesmo período.
Para mitigar o estrago, o governo americano passou a recorrer massivamente a socorros financeiros, transformando o subsídio federal em uma espécie de segunda safra fictícia. Caso o Congresso aprove os aportes solicitados pela Casa Branca, as transferências diretas alcançarão cerca de US$ 55 bilhões em 2026, montante que corresponde a um terço de toda a renda do campo — maior proporção desde 2001. A conta engloba US$ 12 bilhões destinados à guerra comercial e outros US$ 11 bilhões para compensar a alta dos insumos e do diesel, afetados pelo conflito no Irã.
Paralisia legislativa e concentração na cadeia produtiva
Outro entrave decisivo é a indefinição institucional em torno do Farm Bill, a lei agrícola dos EUA. Expirada em 2018 e mantida sob três prorrogações provisórias até setembro de 2025, a legislação segue emperrada por divergências entre a Câmara e o Senado. A falta de diretrizes fixas para crédito, cobertura de seguro e parâmetros de preço eleva as taxas de juros cobradas pelos bancos privados em virtude da insegurança jurídica.
Paralelamente, a rentabilidade do produtor sofre com o estrangulamento de mercado. Atualmente, apenas quatro grandes frigoríficos controlam mais de 80% do abate de bovinos no país, ante 35% há quatro décadas. O fazendeiro lida com fornecedores concentrados na compra de insumos e poucos compradores na hora de escoar a produção. Para agravar a situação, o Chapter 12 — modelo de recuperação judicial voltado a propriedades rurais — restringe o acesso de famílias que obtêm parte expressiva da renda fora da porteira, impedindo a proteção legal de centenas de produtores.
Restrições de trabalho e vulnerabilidade agronômica
A força de trabalho também virou foco de atrito. Medidas de endurecimento migratório desestabilizaram uma estrutura que depende de 42% de empregados sem documentação regularizada e 16% amparados por vistos temporários. Com a revisão para baixo de remunerações e a extinção de índices salariais, faltaram braços para a colheita, fazendo as falências triplicarem na Flórida.
No manejo do solo, a excessiva dependência de defensivos químicos como o glifosato gerou um passivo agronômico. Diante da pressão de grupos regulatórios para banir herbicidas tradicionais, o campo se depara com a ausência de planos alternativos de transição biológica ou tecnológica, refletindo a falta de incentivos de longo prazo.
As lições urgentes para o agronegócio brasileiro
Embora o Brasil tenha ampliado a participação global no curto prazo devido às barreiras tarifárias contra os norte-americanos, especialistas ressaltam que ganhos conjunturais não anulam deficiências internas. Os números de quebras nos EUA refletem políticas adotadas anos antes, sinalizando que a onda de liquidações deve persistir.
A diferença crucial reside na capacidade financeira: enquanto o Tesouro americano dispõe de capital para amortecer falhas estruturais com repasses de US$ 55 bilhões, o Brasil não possui fôlego orçamentário equivalente. Manter a liderança global exigirá avanços próprios na formulação de um marco agrícola previsível, diminuição da vulnerabilidade a fertilizantes importados e investimentos contínuos em sustentabilidade produtiva.
Fonte: bra1.com.br






