O setor agrícola brasileiro caminha para fechar o ano de 2026 com uma forte retração na demanda por adubos e insumos. Após atingir 49,1 milhões de toneladas no ano anterior, as projeções atuais indicam uma queda estimada entre 10% e 16%, o que pode derrubar o volume total para menos de 42 milhões de toneladas e retornar aos patamares vistos em 2022.
Projeções em baixa e entregas reduzidas
O ritmo mais fraco nas aquisições para a safra de soja e a desaceleração nas compras externas de nitrogenados mudaram o cenário projetado por especialistas. Em agosto, a consultoria Argus previa um consumo de 45 milhões de toneladas. No entanto, entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já admitem volumes abaixo de 42 milhões de toneladas, enquanto a Mosaic projeta uma retração de até 15%.
Os dados oficiais da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) comprovam que a desaceleração já afeta o comércio. Entre janeiro e julho, o país recebeu 22,9 milhões de toneladas de fertilizantes, uma baixa de 8,8% frente a 2025. Apenas em julho, a queda anual atingiu 22,3%, somando 3,9 milhões de toneladas. Na indústria, a produção de intermediários recuou 19,7% no mesmo período.
Crise no enxofre e impacto no crédito
O encarecimento do enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fosfatados, gerou forte pressão financeira sobre as indústrias e provocou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas da Mosaic, além de restrições em duas unidades de mistura. Embora os preços globais do insumo tenham recuado recentemente, os patamares históricos ainda pesam nos custos.
Do lado da produção, a combinação de insumos caros e crédito rural restrito obriga os agricultores a buscarem alternativas para cortar despesas. Uma das medidas adotadas é o aproveitamento de resíduos de fósforo acumulados no solo, embora especialistas alertem para os riscos à fertilidade a longo prazo se a prática não for planejada.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Mauricio Buffon, reconhece que a redução do uso de fertilizantes pode afetar a produção, mas aponta a necessidade de controlar os custos para evitar maior endividamento dos agricultores.
Dependência externa e reflexos na safra
A forte dependência do mercado internacional deixa o setor vulnerável às variações cambiais e aos conflitos geopolíticos no Oriente Médio. As importações brasileiras refletem essa instabilidade: em setembro, as compras externas caíram 27,9% em relação ao mesmo período do ano passado, aprofundando a retração de 43,7% registrada em agosto.
Essa contração coincide com a preparação do ciclo 2026/27, onde a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê um avanço de apenas 1,4% na área plantada de soja, um dos menores crescimentos em duas décadas. A produção estimada em 181,6 milhões de toneladas ainda dependerá do clima e do manejo adotado.
A recuperação do mercado interno nos próximos meses dependerá diretamente da melhora na relação de troca entre o preço dos grãos e o custo dos insumos, além de condições mais acessíveis de financiamento para o produtor rural.
Fonte: ncnews.com.br






