O Banco do Brasil (BBAS3) intensificou a renegociação de dívidas do agronegócio e já contabiliza R$ 16 bilhões em operações em diferentes etapas de contratação. O movimento representa uma tentativa de reorganizar a carteira rural, uma das principais fontes de pressão sobre os resultados da instituição financeira.

Apesar do avanço, os números ainda não garantem uma recuperação dos lucros ou dos dividendos. O banco enfrenta inadimplência elevada, crescimento limitado da carteira de crédito e redução expressiva dos desembolsos para o agronegócio no início da safra 2026/2027.

O cenário também divide analistas. Enquanto parte do mercado acompanha o potencial de recuperação do Banco do Brasil, instituições financeiras demonstram cautela diante das dificuldades para reduzir perdas com crédito e recuperar a rentabilidade.

A atenção dos investidores está voltada para o balanço do terceiro trimestre de 2026, previsto para novembro, que poderá oferecer informações mais recentes sobre o comportamento da inadimplência e a capacidade do banco de retomar resultados mais consistentes.

Banco do Brasil soma R$ 16 bilhões em renegociações em andamento

Em comunicado divulgado em 22 de outubro, o Banco do Brasil informou que alcançou R$ 16 bilhões em operações encaminhadas para contratação no âmbito da Medida Provisória 1.376/2026, voltada à renegociação de dívidas rurais.

O montante está distribuído em três etapas:

Situação das operações Valor
Contratos já despachados R$ 3,9 bilhões
Operações em fase final de contratação R$ 6,1 bilhões
Processos de recebimento de documentos R$ 6 bilhões
Total em diferentes etapas R$ 16 bilhões

A distinção é importante: os R$ 16 bilhões não correspondem integralmente a dívidas já renegociadas e formalizadas. Parte significativa do montante ainda depende de procedimentos contratuais e documentais.

O banco pretende utilizar os R$ 12,4 bilhões em recursos equalizados destinados à instituição, além de outras fontes de financiamento, incluindo recursos próprios, para superar R$ 20 bilhões em operações.

A expectativa está relacionada ao prazo de vigência informado para a medida provisória, em 12 de novembro de 2026.

A iniciativa busca oferecer alternativas a produtores rurais e cooperativas que enfrentaram dificuldades financeiras provocadas por eventos climáticos ou condições adversas de mercado.

Para o Banco do Brasil, o objetivo é facilitar a reorganização das obrigações financeiras dos clientes e aumentar as possibilidades de recuperação dos créditos concedidos.

Entretanto, a efetividade dessas renegociações dependerá do comportamento dos pagamentos nos próximos meses.

Crédito ao agronegócio recua 44% no início do Plano Safra

Além do avanço na renegociação, outro indicador chamou a atenção do mercado.

Entre 1º de julho e 19 de outubro de 2026, o Banco do Brasil desembolsou R$ 31,633 bilhões em financiamentos ao agronegócio, contra R$ 56,543 bilhões no mesmo intervalo da safra anterior.

A redução foi de 44,1%, equivalente a aproximadamente R$ 24,9 bilhões a menos em desembolsos.

O recuo não ocorreu de maneira uniforme entre os segmentos de produtores.

Na agricultura familiar, os desembolsos cresceram 1,7%, alcançando R$ 8,444 bilhões. Já no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o volume caiu 44,2%, para R$ 4,406 bilhões.

O banco também informou que aproximadamente R$ 3,9 bilhões em financiamentos destinados a médios produtores foram antecipados entre março e junho, fator que influencia a comparação entre as safras.

A retração acompanha um cenário mais amplo de desaceleração do crédito rural. Também reflete a necessidade de administrar riscos em uma carteira afetada por dificuldades de pagamento.

Para os acionistas, a combinação apresenta dois efeitos possíveis. A concessão mais seletiva de crédito pode limitar novas perdas, mas também restringe o crescimento das receitas futuras.

Inadimplência de 5,61% permanece como principal preocupação

Os números mais recentes do balanço trimestral publicado pelo Banco do Brasil mostram por que a qualidade da carteira se tornou determinante para avaliar BBAS3.

No segundo trimestre de 2026, a inadimplência superior a 90 dias alcançou 5,61%, acima dos 5,05% registrados em março e dos 3,96% observados em junho de 2025.

A elevação aconteceu apesar da melhora do lucro trimestral.

O banco registrou resultado líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões entre abril e junho de 2026, crescimento de 13,9% em relação ao primeiro trimestre e de 3,3% na comparação anual.

Principais indicadores do Banco do Brasil — segundo trimestre de 2026

Indicador Resultado
Lucro líquido ajustado R$ 3,9 bilhões
Margem financeira bruta R$ 27,5 bilhões
Custo do crédito R$ 18,5 bilhões
Carteira de crédito expandida Mais de R$ 1,3 trilhão
Inadimplência acima de 90 dias 5,61%
Retorno sobre patrimônio líquido (RSPL) 8,3%

Os resultados mostram que o banco mantém capacidade relevante de geração de receitas, mas enfrenta custos elevados relacionados ao risco dos empréstimos.

A margem financeira bruta cresceu 9,6% em 12 meses, enquanto o custo do crédito atingiu R$ 18,5 bilhões no trimestre.

Embora esse custo tenha recuado 2,1% em relação aos três meses anteriores, permaneceu em nível elevado.

É importante observar que o índice de inadimplência de 5,61% não significa perda definitiva desse percentual sobre toda a carteira. Ele representa a proporção de operações com atraso superior a 90 dias, sujeitas a diferentes possibilidades de recuperação e constituição de provisões.

A capacidade de reduzir esses atrasos será um dos fatores decisivos para a recuperação da rentabilidade.

JPMorgan recomenda venda de BBAS3 e vê recuperação mais demorada

A deterioração da qualidade do crédito levou o JPMorgan a revisar sua avaliação sobre o Banco do Brasil.

Em 6 de outubro, a instituição rebaixou BBAS3 de neutra para underweight, classificação que indica exposição abaixo da média do mercado e costuma ser interpretada como uma recomendação equivalente à venda.

O preço-alvo foi estabelecido em R$ 23 por ação.

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Na avaliação do JPMorgan, a recuperação dos indicadores do Banco do Brasil poderá levar alguns anos. O banco destacou o comportamento da inadimplência no agronegócio e os riscos relacionados às condições climáticas e financeiras dos produtores.

Na mesma revisão, o JPMorgan elevou a recomendação do Bradesco (BBDC4) para overweight, equivalente a uma exposição acima da média do mercado, com preço-alvo de R$ 26.

Os preços-alvo representam estimativas de analistas, não garantias de valorização ou desvalorização. Além disso, podem ser revisados conforme as condições de mercado.

BBAS3 negocia com desconto patrimonial, mas isso significa oportunidade?

Outro ponto importante na avaliação do Banco do Brasil é a relação entre o preço da ação e seu valor patrimonial.

O indicador P/VP compara o valor de mercado de uma companhia com seu patrimônio líquido contábil.

No cenário apresentado na análise que motivou esta reportagem, BBAS3 estaria negociando a aproximadamente 0,76 vez seu valor patrimonial, equivalente a um desconto de 24%.

Isso significa que, para cada R$ 1 de patrimônio líquido por ação, o investidor pagaria aproximadamente R$ 0,76.

Esse percentual, entretanto, deve ser tratado como uma referência da análise, e não como uma cotação confirmada para o pregão de 30 de outubro de 2026.

O desconto pode indicar uma oportunidade quando a empresa apresenta capacidade de recuperar sua rentabilidade. Por outro lado, também pode refletir riscos que justificam uma avaliação mais conservadora.

No caso do Banco do Brasil, os principais fatores são o aumento da inadimplência, a pressão sobre o lucro e o retorno sobre patrimônio ainda limitado.

Assim, uma ação negociada abaixo do valor patrimonial não está necessariamente barata.

O preço precisa ser analisado em conjunto com a rentabilidade esperada, os riscos de crédito e a capacidade de geração de resultados.

Dividendos de BBAS3: o que esperar dos pagamentos em 2026?

Os dividendos representam outra preocupação dos investidores do Banco do Brasil.

Em janeiro, a instituição anunciou a aprovação de um payout de 30% para 2026, considerando a distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio.

O payout corresponde à parcela do lucro destinada à remuneração dos acionistas.

Com a redução da lucratividade, a capacidade de distribuição também fica pressionada, mesmo que o percentual destinado aos acionistas permaneça estável.

Para exemplificar, considerando um lucro anual hipotético de R$ 17,1 bilhões e um payout de 30%, o montante total distribuível seria de aproximadamente R$ 5,13 bilhões, antes de eventuais ajustes aplicáveis.

Esse cenário de R$ 17,1 bilhões é uma projeção utilizada na análise de mercado que serviu de base para esta reportagem, não um resultado confirmado pelo Banco do Brasil.

O valor efetivo dependerá do lucro realizado, das decisões societárias e das condições financeiras da instituição.

Por isso, investidores interessados em renda passiva precisam acompanhar não apenas o dividend yield histórico de BBAS3, mas também a evolução dos lucros e o custo do crédito.

Próximo balanço do Banco do Brasil será divulgado em 11 de novembro

O calendário oficial de relações com investidores prevê a divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026 em 11 de novembro.

A apresentação pública dos resultados está marcada para 12 de novembro.

O balanço será importante para esclarecer se o banco conseguiu reduzir a pressão sobre suas operações de crédito ou se a deterioração da carteira continua afetando os resultados.

Entre os principais indicadores que merecem atenção estão a inadimplência superior a 90 dias, o custo do crédito, a evolução da carteira rural, o lucro líquido ajustado e o retorno sobre patrimônio.

Também será relevante observar as informações apresentadas pela administração sobre a recuperação de créditos e as condições de financiamento para o agronegócio.

Os R$ 16 bilhões em operações de renegociação representam uma iniciativa importante, mas ainda não constituem evidência suficiente de uma reversão definitiva dos problemas da carteira.

Vale a pena comprar BBAS3 agora?

A análise de BBAS3 envolve dois movimentos distintos.

De um lado, o Banco do Brasil mantém uma carteira de crédito superior a R$ 1,3 trilhão, ampla presença no mercado bancário e capacidade de geração de receitas. A renegociação de dívidas rurais também pode contribuir para reorganizar parte das operações problemáticas.

De outro, a inadimplência elevada, a redução dos desembolsos para o agronegócio e as dificuldades para recuperar a rentabilidade continuam representando riscos.

O desconto em relação ao patrimônio pode atrair investidores que apostam em uma recuperação de longo prazo, mas não elimina a possibilidade de novas perdas no preço das ações.

O principal sinal de recuperação não será apenas o volume de dívidas renegociadas, mas a capacidade do Banco do Brasil de transformar essas operações em pagamentos efetivos, reduzir o custo do crédito e ampliar novamente seus lucros.

Até a divulgação do balanço de novembro, a evolução desses indicadores deve continuar no centro das avaliações sobre BBAS3.

Aviso legal: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de compra, venda ou manutenção de valores mobiliários. Projeções e preços-alvo são estimativas sujeitas a riscos e mudanças. O investidor deve considerar seu perfil e objetivos antes de tomar decisões.