A expressiva dependência do agronegócio brasileiro em relação ao mercado externo coloca as lavouras nacionais sob constante estado de alerta. Atualmente, o país compra no exterior cerca de 85% dos fertilizantes aplicados em suas plantações, cenário que deixa o setor vulnerável a turbulências diplomáticas, oscilações bruscas nas cotações internacionais e ameaças de desabastecimento.
Impactos geopolíticos e pressão financeira nas lavouras
O peso dos nutrientes no bolso do agricultor é significativo: eles representam entre 20% e 30% do custo operacional das safras. De acordo com a especialista em inteligência de mercado de fertilizantes Maísa Romanelo, a fragilidade decorre de raízes históricas, características geológicas do território e carência de estímulos industriais.
Conflitos recentes evidenciam essa exposição. As tensões geopolíticas no Oriente Médio e os entraves de navegação no Estreito de Ormuz geraram forte encarecimento do enxofre, matéria-prima basilar na composição de produtos fosfatados. Essa valorização gerou dificuldades operacionais severas, culminando na desaceleração e até na paralisação de plantas industriais de adubos.
Para atenuar os riscos de interrupção no fornecimento, intensificou-se a diversificação de parceiros comerciais a partir da eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. Nações como Marrocos, Canadá, países do Oriente Médio e a própria Rússia consolidaram-se como fontes prioritárias para a agricultura brasileira.
Limites da extração mineral e a alternativa dos bioinsumos
Embora disponha de reservas minerais, o território nacional enfrenta obstáculos técnicos. A baixa concentração de fósforo nas jazidas locais, associada à dependência de componentes importados, limita a expansão da capacidade produtiva interna.
Como alternativa sustentável, soluções como os bioinsumos e a fabricação de adubos derivados de resíduos rurais ganham espaço. Conforme avalia Romanelo, esses recursos são promissores para abrandar o déficit mineral, mas a adoção massiva esbarra em entraves de viabilidade logística, volume de escala e competitividade econômica.
Gargalos estruturais e a saúde financeira do produtor
Além das oscilações nos preços dos insumos, o consultor Celso Ricardo ressalta que o endividamento, o crédito escasso e as altas taxas de juros corroem as margens de lucro dos agricultores. Segundo ele, o alcance real de programas como o Plano Safra deve ser medido não pelo montante financeiro anunciado em peças oficiais, mas pela efetiva injeção de recursos na ponta, a capacidade de liquidação dos compromissos e a proteção patrimonial dos produtores.
O consultor também aponta a defasagem na capacidade estática de armazenagem, os nós logísticos no transporte e o atendimento técnico deficiente como barreiras à sustentabilidade das propriedades rurais. Para mudar esse panorama, Ricardo defende o fortalecimento de cooperativas, o incentivo ao processamento industrial dos produtos no Brasil, a ampliação do seguro agrícola e a criação de selos de origem que agreguem valor à produção.
Fonte: Revista Oeste






