A proliferação de fazendas fantasmas e de imóveis rurais com irregularidades em registros acendeu um sinal vermelho para os credores do agronegócio brasileiro. O cenário ganha ainda mais gravidade com o volume expressivo de dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores em todo o país.
Panorama das dívidas no campo Dados levantados pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) indicam que o setor acumula cerca de R$ 256 bilhões em operações que estão atrasadas, inadimplentes, renegociadas ou que passaram por prorrogações, considerando o cenário verificado até abril de 2026.
O grande perigo para os financiadores reside no momento de reaver os valores emprestados. Ao tentarem executar os bens oferecidos como garantia, bancos e fundos de investimento frequentemente descobrem que as terras não existem fisicamente, possuem dimensões divergentes ou acabam se sobrepondo a áreas de terceiros, reservas públicas e até mesmo a leitos de rios.
Investigações policiais e fraudes em cartórios O problema tem exigido ações enérgicas das autoridades de segurança pública e do poder judiciário. No Pará, a Polícia Federal deflagrou a Operação Imperium Fictum em 2025 para desarticular um esquema de criação de propriedades fictícias vinculadas a uma gleba federal em Anapu. Por meio dessas matrículas fraudulentas, utilizadas tanto para venda quanto para caução de empréstimos, instituições financeiras teriam liberado mais de R$ 8,4 milhões em financiamentos.
Outro caso emblemático ocorreu em Mato Grosso com a Operação Canadá, conduzida pela Polícia Civil. A apuração revelou o deslocamento eletrônico de um Cadastro Ambiental Rural (CAR) para outra região do estado, gerando uma avaliação fictícia de R$ 84 milhões que serviu para embasar pedidos de crédito. Inconsistências similares também foram alvos de fiscalizações e bloqueios judiciais em estados como Tocantins e Bahia.
Desafios na checagem e burocracia documental Especialistas apontam que a integração deficitária entre os dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o sistema de registro de imóveis dificulta a fiscalização. Painéis do Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR) mostram que menos da metade dos imóveis rurais certificados pelo Incra possui essa validação averbada na matrícula. Além disso, normativas do Conselho Nacional de Justiça estabelecem que indícios de sobreposição de áreas não provocam o bloqueio automático dos registros.
“Nos leilões de fazendas em que atuo, a matrícula que abrange terras de terceiros não é raridade. Muitas vezes o credor empresta olhando só o documento e descobre o problema apenas quando tenta transformar a garantia em dinheiro”, afirma Patrick Lüdtke, CPO da Axioma Intelligence.
Mitigação de riscos e regiões mais afetadas De acordo com avaliações do mercado especializado, o fenômeno se concentra com maior intensidade em estados como Mato Grosso, Pará e nos municípios da região do Matopiba — que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Para evitar prejuízos bilionários, a recomendação é a adoção de auditorias e análises geográficas rigorosas antes da liberação de novos recursos financeiros ou da aceitação de bens em garantia.
Fonte: Money Times






