O setor agropecuário nacional deve manter uma postura estritamente pragmática e preservar os laços comerciais tanto com Washington quanto com Pequim, independentemente dos rumos eleitorais do país. Esse foi o consenso apresentado por analistas e lideranças do setor reunidos na capital paulista durante um debate no Insper focado na segurança alimentar global.
Alimentos acima de ideologias partidárias
A necessidade de separar a diplomacia comercial de preferências ideológicas é vista como indispensável para o sustento econômico brasileiro. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, reiterou uma declaração emblemática para definir o papel da produção nacional: Frango não tem partido nem ideologia.
De acordo com o dirigente, a cadeia produtiva atua diretamente para garantir comida no prato de consumidores no mercado interno e em mais de 170 nações. Santin argumentou que a relevância global do país afasta riscos de rupturas comerciais significativas, destacando que o agronegócio responde por cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
O papel dos aportes chineses na logística nacional
A atenção para com a China — principal destino das remessas agropecuárias do país, à frente da União Europeia e dos Estados Unidos — vai além da compra de grãos e carnes. Os aportes financeiros do gigante asiático desempenham papel estratégico na modernização da malha de transporte e escoamento do país.
A especialista em relações com a China Larissa Wachholz, que foi assessora especial do Ministério da Agricultura entre 2019 e 2021, destacou que o capital chinês tem sido decisivo para mitigar deficiências estruturais históricas. Cargas refrigeradas e contêineres especiais, fundamentais para a exportação de proteína animal, dependem de terminais modernos e bem equipados para assegurar a competitividade do produto brasileiro.
Entre os empreendimentos estratégicos com presença chinesa no Brasil destacam-se:
- A atuação da estatal Cofco no terminal STS11, localizado no Porto de Santos (SP);
- A ampliação operacional da TCP no Porto de Paranaguá (PR), administrada pela China Merchants Port, que expandiu a estrutura de tomadas para contêineres refrigerados em 2024.
Cenário geopolítico e pressão externa
Wachholz explicou que os formuladores de políticas em Pequim acompanham o ambiente da América Latina com atenção redobrada, observando o nível de abertura aos seus negócios. Essa cautela reflete o avanço da influência norte-americana sob Donald Trump, período no qual Washington passou a tratar o continente com mais ênfase como área de interesse estratégico próprio.
Nesse contexto de disputas tarifárias e tensões geopolíticas, o coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, reforçou que o país precisa navegar com habilidade diplomática entre as duas maiores potências do planeta. Para o especialista, estreitar relações com uma superpotência não pode significar o distanciamento da outra, sendo essencial preservar pontes sólidas com ambos os lados.
Fonte: Agrimidia






