O início do plantio da safra de verão 2026/27 ocorre sob forte instabilidade no campo. Os agricultores brasileiros enfrentam a combinação de eventos meteorológicos rigorosos com turbulências geopolíticas no exterior, um cenário que encarece insumos vitais, comprime margens financeiras e traz riscos de repasse de preços ao consumidor final.
Disparada nos fertilizantes e tensões no comércio global
O mercado de adubos sofre impactos severos com a instabilidade no exterior. A guerra entre Rússia e Ucrânia continua afetando a oferta de gás natural e compostos nitrogenados, enquanto os conflitos no Oriente Médio atingem uma rota estratégica por onde transitam cerca de 40% das exportações globais de ureia e mais de 40% das de enxofre.
Como consequência dessa conjuntura internacional, a cotação do enxofre — ingrediente indispensável para a produção de fertilizantes fosfatados — saltou de patamares inferiores a US$ 600 por tonelada no encerramento de 2025 para picos superiores a US$ 1.200 por tonelada. No Brasil, o preço da ureia atingiu US$ 800 por tonelada em abril de 2026, praticamente o dobro do valor registrado antes da crise.
Esse encarecimento provocou um recuo de 23% no volume de importações de adubos entre janeiro e agosto de 2026. Com isso, os fertilizantes passaram a representar aproximadamente 35% de todo o custo operacional da safra 2026/27. A alta do petróleo também encareceu o óleo diesel e os defensivos químicos convencionais que, somados aos juros elevados e à escassez de trabalhadores rurais, aumentam a pressão econômica sobre os produtores.
El Niño severo afeta diferentes regiões produtivas
No front meteorológico, um episódio de El Niño com intensidade acima do padrão tradicional desequilibra a distribuição das precipitações pelo país. A região Sul e faixas de São Paulo e Mato Grosso do Sul lidam com volumes excessivos de chuva, elevando o perigo de encharcamento da terra, proliferação de fungos e perdas na colheita de milho e soja.
Em contrapartida, as áreas produtoras do Sudeste e do Centro-Oeste convivem com estiagem prolongada e atraso no calendário chuvoso, dificultando o desenvolvimento inicial das lavouras de grãos. O estresse hídrico e térmico também atinge culturas perenes e semiperenes, derrubando a floração e prejudicando o crescimento de frutos nos pomares de laranja, nos cafezais e nos canaviais.
Esse descompasso entre custos elevados e ameaças climáticas gera preocupação em cadeia: agricultores com menor escala produtiva sofrem com margens reduzidas, ao passo que a potencial quebra de oferta e os fretes mais caros podem pressionar a inflação de alimentos nas prateleiras dos supermercados.
Manejo regenerativo e insumos biológicos ganham força
Diante desse aperto financeiro, métodos sustentáveis deixaram de ser restritos a nichos agroecológicos para se transformarem em ferramentas essenciais de competitividade. A agricultura regenerativa e o uso de bioinsumos têm se destacado como alternativas viáveis para diminuir a dependência de produtos químicos cotados em moeda estrangeira.
Levantamentos do setor apontam que a utilização de biofertilizantes produzidos localmente pode custar cerca de US$ 239,40 por hectare, valor inferior aos US$ 270,00 por hectare demandados por fórmulas importadas. Além disso, a aplicação em grande escala de bionematicidas e bioinseticidas já proporciona economia de aproximadamente 10% nos custos produtivos, com acréscimo médio de 6% no rendimento das lavouras, a despeito de entraves regulatórios ainda pendentes.
Resiliência do solo contra o estresse hídrico
Estratégias consolidadas como o sistema de plantio direto, a rotação de culturas e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) ampliam a matéria orgânica e melhoram a retenção de umidade no solo. Produtores que adotam esses métodos relatam quedas de até 20% na aplicação de fertilizantes minerais, 30% em fungicidas e 50% em inseticidas convencionais.
Nas lavouras perenes, a integração agroflorestal e a adubação verde auxiliam pés de café e pomares cítricos a suportar ondas de calor e secas com menor uso de defensivos sintéticos. Já nos canaviais, a preservação da palhada sobre a terra, a aplicação de vinhaça e a escolha de variedades resistentes ao deficit hídrico sustentam os níveis de produtividade a custos menores.
Embora imponha barreiras imediatas aos resultados operacionais, o atual ciclo agrícola acelera a modernização técnica no campo brasileiro, estimulando modelos de gestão focados na saúde do solo e na autonomia contra oscilações do mercado exterior.
Fonte: Globo Rural






