A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defendeu o papel fundamental do agronegócio no abastecimento interno e no envio de alimentos para outros países durante sessão realizada no Senado Federal. A manifestação ocorreu em homenagem ao Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, oportunidade em que a entidade pontuou que a erradicação da fome depende diretamente de emprego, renda e poder de compra para as famílias adquirirem comida.
Safra recorde e mercado internacional A discussão sobre a segurança alimentar ocorre logo após o registro de uma safra recorde no país. De acordo com estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos para o ciclo 2025/2026 deve alcançar 361,7 milhões de toneladas, o que representa uma alta de 2,6% em relação ao período anterior. Esse desempenho eleva a oferta de matérias-primas voltadas tanto para o consumo doméstico e a industrialização quanto para as exportações.
No comércio exterior, as vendas externas do setor ultrapassaram a marca de R$ 848 bilhões em 2025, contabilizando um incremento de 3% no valor apurado em moeda norte-americana, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O montante engloba fibras, produtos florestais e alimentos. Os principais destinos da produção brasileira foram a China, responsável por 32,7% das aquisições, seguida pela União Europeia (14,9%) e pelos Estados Unidos (6,7%).
Desafios logísticos e custos de produção Apesar dos volumes expressivos, o abastecimento interno exige monitoramento detalhado por cultura. Enquanto a soja e o milho registraram avanços, lavouras como arroz, feijão e trigo sofreram retração. No caso do arroz, a Conab projetou 11,08 milhões de toneladas, queda de 13,2%, acompanhada por uma redução de 14% na área plantada motivada por preços menos atrativos aos agricultores.
A situação evidencia um dilema recorrente na atividade rural: a oferta depende de condições econômicas favoráveis para o plantio contínuo. Alimentos acessíveis beneficiam os consumidores, mas remunerações abaixo dos custos de produção podem desestimular o cultivo no ciclo seguinte. Fatores como crédito rural, ganhos de produtividade e escoamento eficiente pesam diretamente nessa equação.
Acesso aos alimentos e inflação Na outra ponta da cadeia, a CNA alertou para as dificuldades enfrentadas por parcela da população na obtenção de alimentos. Em setembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou alta de 0,96% na alimentação no domicílio, após três meses consecutivos de queda.
Os dados da pesquisa de segurança alimentar do IBGE para 2024 indicam que 18,9 milhões de lares enfrentavam algum nível de dificuldade para garantir o sustento, o equivalente a 24,2% do total. Embora tenha havido uma redução de 2,2 milhões de residências nessa condição na comparação com 2023, cerca de 2,5 milhões de domicílios ainda conviviam com o grau mais severo de escassez alimentar.
Fim de ação bilionária sobre a Moratória da Soja Enquanto o debate sobre o abastecimento seguia no Parlamento, a Justiça de Mato Grosso extinguiu a ação judicial na qual a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) exigia o pagamento de R$ 1,1 bilhão em reparação coletiva por perdas atribuídas à Moratória da Soja. A sentença encerrou o processo em primeira instância sem analisar o mérito dos prejuízos alegados.
A cobrança pretendia responsabilizar empresas comercializadoras e entidades setoriais pelos reflexos econômicos do pacto criado em 2006, que restringia a compra de soja cultivada em áreas do bioma Amazônia desmatadas após julho de 2008. Contudo, a Vara Especializada em Ações Coletivas de Cuiabá aplicou o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que validou o acordo e determinou o encerramento de contestações judiciais baseadas em sua suposta ilegalidade.
Com a decisão, os produtores representados pela associação não receberão indenizações financeiras por essa via, embora a Justiça tenha rejeitado os pedidos de aplicação de multas e pagamento de honorários contra a entidade. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) já havia anunciado sua saída do pacto coletivo no início de 2026, passando a adotar critérios individuais com seus fornecedores.
Repercussão no setor produtivo O impacto do encerramento judicial foi comentado por lideranças do setor. O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, lamentou o desfecho da demanda jurídica.
“O encerramento da ação frustra a expectativa de reparação dos produtores que se consideram prejudicados pela Moratória da Soja. A cobrança da Aprosoja procurava dar uma resposta a quem cumpriu a legislação ambiental, investiu na propriedade e encontrou restrições para vender. A sentença encerrou esse pedido sem examinar os prejuízos alegados. Isso precisa ficar claro para o agricultor”, comentou.
Rezende também destacou a necessidade de maior clareza nas relações comerciais para o futuro dos produtores rurais.
“O problema comercial continua exigindo atenção. O produtor precisa saber, antes de plantar e de assumir compromissos, quais critérios serão usados para receber sua soja. Quem trabalha dentro da lei precisa de previsibilidade para investir. Também é necessário dar transparência às exigências dos compradores, para que o agricultor consiga avaliar suas alternativas de venda e os custos envolvidos”, disse Rezende.
Por fim, o dirigente apontou os próximos passos recomendados para a categoria diante do novo cenário de comercialização.
“Agora, o setor precisa concentrar esforços para ampliar mercados e construir condições comerciais mais claras. Sair de um acordo coletivo não significa, necessariamente, abandonar as restrições de compra. Por isso, a representação dos produtores deve acompanhar as regras adotadas por cada empresa e buscar soluções que preservem o acesso aos mercados e a renda de quem produz”, recomendou o presidente do IA.
Fonte: Web Rádio Terra






