Equilíbrio entre EUA e China é crucial para o agro brasileiro

Brasil deve evitar aliança exclusiva com EUA ou China no agro, diz especialista

Diante de tensões geopolíticas acirradas e da crescente divisão entre as grandes potências mundiais, o agronegócio nacional precisa apostar na multiplicidade de parceiros comerciais em vez de restringir seus laços a um único bloco. A análise foi apresentada pelo cientista político José Luiz Niemeyer durante a 2ª Feira Internacional do Café Conilon (FICC), em São Mateus, no Norte do Espírito Santo.

Importância da neutralidade diplomática

Na visão do pesquisador, o país deve adotar uma postura diplomática balanceada com destinos de grande relevância, como União Europeia, Mercosul, Índia e Rússia, além das duas maiores economias globais. Niemeyer alertou que priorizar um lado específico traria sérios riscos às negociações comerciais.

O Brasil deve manter uma equidistância na agenda de política externa. Os Estados Unidos são muito importantes. Inclusive, não são tão importantes para produtos agrícolas. São muito mais importantes para produtos semi-industrializados, afirma Niemeyer.

O especialista ressaltou ainda os perigos de uma eventual guinada ideológica nos próximos anos. Se o próximo governo eleito começar a querer buscar Estados Unidos ou China como aliados preferenciais num mundo fragmentado, competitivo e com tendência ao conflito, o Brasil estará cometendo um erro de política externa, disse.

Não se deve considerar que se tem, em um cenário como esse, exclusividade de aliança. Não pode ter um país só, uma aliança exclusiva, afirmou.

Café como motor de diplomacia e novos negócios

O agronegócio, segundo o professor, carrega uma função que ultrapassa a mera venda de commodities: itens como o café funcionam como instrumentos para consolidar relações institucionais e desbravar fronteiras comerciais. Esse alcance é impulsionado por tecnologias recentes de cultivo e novas tendências globais de consumo.

Quando um produto como o café abre oportunidade de negócio para a região e para a cidade de São Mateus, não é só sobre café. É sobre oportunidade de negócio. É também sobre a maneira como se organiza a economia, afirmou o especialista.

Força coletiva na busca por mercados

Para ultrapassar as barreiras do mercado externo, no entanto, Niemeyer avalia que o produtor não deve atuar de maneira isolada. O avanço depende da articulação integrada de cooperativas, lideranças políticas locais e entidades setoriais.

É muito difícil um produtor que tenha 1 milhão de pés de café ir e negociar. Ele tem que negociar a partir dessas associações de classe, das cooperativas, de feiras como essa, que têm um papel importante para buscar novos clientes, disse.

Infraestrutura portuária capixaba e escoamento

A expansão do comércio exterior esbarra também nos gargalos logísticos do país. Segundo o professor, a rede portuária do Espírito Santo tem dimensão estratégica que transcende os limites estaduais, servindo como canal logístico essencial para cargas vindas de Minas Gerais e de São Paulo.

O Espírito Santo é um sistema de portos estratégico para o Brasil todo. Produtos de São Paulo, de Minas… O Estado pode ajudar a baratear a logística brasileira, que é fundamental para o Brasil continuar e expandir o comércio exterior brasileiro, observou.

Por fim, Niemeyer pontuou que o volume vendido para o exterior ainda está aquém do verdadeiro potencial nacional. Sem portos como esse sistema do Espírito Santo, o Brasil não vai conseguir colocar os seus produtos onde deve conseguir. O Brasil ainda é, do ponto de vista do comércio exterior, fraco. Pela capacidade de produção interna, tinha que exportar muito mais, destacou.

Fonte: A Gazeta

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