Com uma década à frente da operação brasileira e 13 anos na empresa, o executivo Jerome Cadier avalia que o país ainda desperdiça sua capacidade turística, apesar do forte desempenho no agronegócio. “O Brasil é magnífico no agro, mas também poderia ser no turismo. Infelizmente, não é. Precisamos de infraestrutura para conectar cidades menores e de segurança regulatória para atrair empresas estrangeiras”, afirmou o executivo, capa da edição da Forbes que traz a lista dos Melhores CEOs de 2026, durante evento em homenagem aos líderes.
Cenário econômico e recuperação pós-pandemia
Durante painel mediado por Katarina Camarotti, diretora executiva da Forbes Brasil, no dia 19 de janeiro, o líder corporativo debateu os rumos da companhia e a conjuntura nacional. “A Latam está forte, competitiva e conseguindo crescer de maneira sustentável. Mas não sabemos o que vem pela frente, porque muita coisa ainda vai mudar no país.”
Após o impacto severo da crise sanitária de covid-19 e a conclusão de sua recuperação judicial em 2022, a empresa registrou queda nas reclamações, expansão consistente de rotas, retorno aos lucros e aportes em uma frota renovada com aeronaves menores.
Desafios estruturais da aviação nacional
Apesar do balanço favorável, o setor enfrenta barreiras significativas, com destaque para o preço do querosene de aviação. O Brasil detém uma das tarifas mais caras do planeta, impulsionada por custos de refino e tributação pesada. “O combustível que utilizo para voos internacionais é mais barato do que para voos domésticos”, afirma o CEO.
Outro entrave severo é a insegurança jurídica gerada pelo volume de litígios. Mesmo figurando entre as empresas mais pontuais do mundo segundo a Cirium, a companhia lida com despesas massivas. “Vamos gastar este ano mais de R$ 500 milhões em processos de passageiros.”
Dados da Abear indicam que o território nacional concentra 98,5% das ações cíveis globais contra empresas do setor. “Esse ambiente não incita concorrência, preços mais baixos ou mais investimentos”, diz Cadier.
Impacto na economia e instabilidade ministerial
Esse panorama contribui para que a média brasileira seja de apenas 0,5 passagem aérea por habitante ao ano, índice inferior ao de nações vizinhas como Chile e Colômbia, conforme dados da Airbus. “Não estamos indo na direção de fazer o brasileiro voar mais, infelizmente. E isso vai prejudicar não só o setor aéreo, mas também a hotelaria, o comércio e todo o turismo.” O executivo também pontuou que a alternância de 23 ministros do turismo em 22 anos dificulta estratégias de longo prazo.
Gestão e inovação na Latam
Recordando o momento em que os voos diários despencaram de 700 para zero em um mês na pandemia, Cadier ressaltou que a reestruturação judicial foi planejada para reerguer a organização com bases sólidas. “Tomamos a decisão de não apressar o processo, mas de fazê-lo de forma profunda para sair mais fortes. Aceleramos muito mais rápido depois, justamente porque passamos por uma transformação estrutural.”
Desse aprendizado surgiu a diretriz interna voltada inteiramente para a experiência do consumidor. “O cliente quer que o voo saia na hora. Ele não está nem aí se a carga cumpriu a meta. Essa mudança de mentalidade é o que nos colocou entre as cinco companhias mais pontuais do mundo.”
Por fim, ao debater o futuro gerencial, o executivo enfatizou a relevância da inteligência artificial e da digitalização. “A pergunta não é ‘como melhorar minha eficiência em 10%?’, e sim ‘como melhorar em 10 vezes?’. Se não estiver avançando na transformação digital, eu não estarei mais liderando nenhuma empresa em cinco anos.”
Fonte: Forbes Brasil






