As intenções da China de diminuir suas importações de soja precisam ser encaradas pelo Brasil como um alerta real, e não como um blefe, conforme avaliação de Carlo Pereira, especialista em sustentabilidade e Notável do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Impacto no agronegócio nacional
Durante participação no programa Capital Sustentável, o especialista destacou que Pequim costuma cumprir rigorosamente as metas estratégicas anunciadas. A segurança alimentar ganhou prioridade máxima no 15º plano quinquenal chinês, o que deve impactar diretamente os produtores brasileiros.
“A gente sabe que o que os chineses planejam, eles implementam”, afirmou.
A China abriga aproximadamente 17% da população mundial, mas dispõe de apenas 11% a 12% de áreas agricultáveis. Embora uma ruptura total com o Brasil seja improvável a curto prazo, qualquer corte planejado nas compras trará consequências severas para a economia agrícola nacional.
Riscos de dependência e mercado
Atualmente, 71% de toda a soja colhida no território nacional é enviada para o mercado chinês. Caso Pequim reduza suas compras em 25% até o final da década, o excedente alcançará 23,5 milhões de toneladas.
“A gente não tem onde colocar isso. Não tem outro mercado”, disse.
Diante desse cenário, Pereira defende que o setor produtivo se antecipe às mudanças, analise os perigos da alta concentração de compradores e busque novas alternativas de cultivo e estratégias a longo prazo.
Lições históricas sobre barreiras comerciais
O especialista também abordou o perigo de novas taxas alfandegárias sobre mercadorias brasileiras, recordando momentos passados em que embargos transformaram redes globais de suprimento. Ele citou a decisão tomada pelos Estados Unidos em 1973, durante a gestão de Richard Nixon, de limitar as vendas externas de soja para o Japão. A medida estimulou os japoneses a buscarem novos fornecedores e a investirem na agricultura do Cerrado.
“Quando a gente fecha a porta de uma maneira, é claro que os produtores vão tentar se recolocar em outro mercado e o comprador também vai tentar buscar de outros lugares”, afirmou.
Na visão de Pereira, medidas adotadas por motivações políticas costumam gerar reflexos econômicos duradouros e difíceis de reverter.
“Muitas vezes isso é irreversível”, disse.
Além disso, o especialista pontuou que o governo brasileiro precisa agir com cautela ao debater eventuais retaliações comerciais, pois tais atitudes podem desencadear consequências imprevisíveis.
“O que bate e o que toma o tapa, a gente sabe e nunca esquece”, afirmou.
Exigências regulatórias na Europa
No tocante à União Europeia, Pereira observou que o bloco europeu frequentemente associa tratados comerciais a exigências burocráticas rígidas e barreiras não tarifárias, focado principalmente no segmento agropecuário. O comportamento ocorre em meio às negociações do acordo entre Mercosul e UE, além de novas normativas que afetam carne suína e bovina, frango, pescados e mel.
“Esse é um clássico dos europeus”, afirmou. “Está fechado, só que daí começa a apertar em barreiras não tarifárias.”
Conforme o especialista, a postura europeia em pautas agrícolas tende a ser irredutível, exigindo que o Brasil se adeque rapidamente a normas rigorosas de rastreabilidade, certificação, segregação e governança.
Ele pontuou que, embora o país tenha alcançado o topo na produção de alimentos, ainda peca na capacidade de comprovar a origem sustentável do que cultiva.
“O Brasil se tornou campeão da produção, mas está atrasado na comprovação do que produz”, disse, citando avaliação debatida no setor. “Vamos ter que ser também campeões de comprovação.”
Para superar o obstáculo, o especialista ressalta que a cadeia produtiva precisa se articular melhor internamente e estabelecer um diálogo mais eficiente com autoridades governamentais e agências reguladoras.
“O setor não está se conversando e o setor não conversa também com o governo e outros órgãos”, disse.
Enquanto concorrentes estrangeiros já avançaram nessa pauta, citando o Uruguai como exemplo de nação que cumpriu todas as etapas exigidas, o Brasil corre o risco de perder espaço internacional.
“O Uruguai já fez a lição de casa, a gente está ficando de fora e certamente vai pagar um preço”, afirmou.
Por fim, Pereira alertou que ignorar os efeitos das barreiras europeias sob o pretexto de que afetam uma fatia menor das exportações é um erro, visto que os prejuízos recaem diretamente sobre os agricultores de menor porte.
“Quem vai sofrer são pequenos produtores”, disse.
Fonte: Times Brasil | CNBC






