Simbolismo da data e força do cultivo no Sul do Brasil
O dia do produtor de tabaco é comemorado em 28 de outubro. A data foi instituída em 2012 pela Associação Internacional dos Produtores de Tabaco e faz referência a 1492. Nesta mesma data, membros da expedição de Cristóvão Colombo chegaram a Cuba e testemunharam nativos inalando a fumaça de folhas queimadas, conhecidas como cohiba.
No Brasil, a data homenageia os fumicultores, sobretudo da Região Sul, com destaque para o Vale do Rio Pardo no Rio Grande do Sul. A atividade é uma importante fonte de trabalho e renda para dezenas de milhares de famílias. Graças a elas, o Brasil é líder mundial na exportação de tabaco desde 1993. É também o segundo produtor, com cerca de 720.000 toneladas.
A cultura do tabaco é moderna. Adota práticas de manejo e proteção ao meio ambiente. Ainda assim, parece invisível quando se aborda o agro nacional. Dela não se fala e pouco se sabe. Alhures, como se não fizesse parte do agro.
O tabaco é obtido das folhas de Nicotiana tabacum L., submetidas à cura natural ou artificial. Suas folhas são utilizadas na fabricação de cigarros e charutos, no fumo em cachimbos e em produtos para mascar. Também têm aplicações na preparação de pesticidas e na indústria farmacêutica. Talos e hastes entram na composição de alguns fertilizantes.
A safra sul-brasileira 2024/2025 foi de 719.891 toneladas, 98% da produção nacional. Segundo a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), o Rio Grande do Sul garante 42,2% da produção, seguido por Santa Catarina com 31,4% e Paraná, com 26,4%.A variedade mais cultivada é a Virgínia (648.000 ton), seguida pela Burley (60.000 ton) e a Comum (12.000 ton).
Em 2025, o Brasil exportou US$ 3,4 bilhões em tabaco (alta de 13,9% em relação a 2024), um recorde histórico. O volume foi 561.052 toneladas (alta de 23,2% em relação a 2024). O tabaco representa quase 1% das exportações brasileiras (0,97%) e 2% das do agro. O Brasil exporta 85% da produção para 121 países. Os principais destinos são União Europeia (41%), Extremo Oriente (36%) e África/Oriente Médio (11%).
Produção moderna e sustentável ainda sofre com invisibilidade
Atraídos pela alta rentabilidade em pequenas áreas e pela garantia de compra da produção, cerca de 138 mil produtores cultivaram 310 mil hectares em 2025. O Rio Grande do Sul reúne 69.238 famílias produtoras, Santa Catarina 41.720 e o Paraná 27.062. Cerca de 620 mil pessoas participam dessa cadeia produtiva no meio rural. O setor gera ainda 40 mil empregos diretos nas indústrias de beneficiamento.
No Brasil, o tabaco é cultivado em pequenas propriedades, com 15 hectares de área em média, sendo: 18% com tabaco; 23,3% outras culturas agrícolas; 17,5% criações e pastagens; 19,8% florestas nativas; 11,3% reflorestamento; 7,3% áreas em pousio ou descanso e 2,8% açudes e reservas de água.
Entre as grandes culturas, o tabaco é uma das menores no uso de defensivos, com 1 kg de ingrediente ativo por hectare e 98,9% dos produtores devolvem as embalagens usadas de produtos químicos ao Programa de Recebimento de Embalagens Vazias de Agrotóxicos. Segundo pesquisa, 97,5% dos fumicultores possuem depósito específico para defensivos e 99,6% têmequipamentos adequados (EPIs) para manejá-los.
Para evitar a doença da folha verde, o setor oferece, a preço de custo, um traje de colheita altamente eficiente, desenvolvido em 2009 pela Unicamp. Testes em toxicologia comprovaram a redução de 98% da exposição dérmica e 1,3 mil técnicos foram capacitados a auxiliar produtores na prevenção.
Os fumicultores não têm acesso ao financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Em 2018, completaram-se 100 anos de adoção do sistema integrado na produção de tabaco. O produtor recebe da indústria fumageira insumos, assistência técnica e treinamento, além da garantia de compra da produção contratada.
Diversificação complementa renda e regenera áreas de plantio
A diversificação de atividades para reduzir a dependência de uma única cultura é incentivada. Após a colheita do tabaco, 75% dos fumicultores cultivam milho, feijão ou implantam pastagens. Aproveitam a adubação residual, obtêm uma segunda renda e mantêm o solo recoberto por vegetação durante o ano todo. A diversificação gerou uma receita de R$ 10,35 bilhões para os produtores no Sul, em 509 municípios. Segundo dados da Afubra, esse montante representa 44,6% do faturamento total das propriedades.
Cultivar tabaco é bom negócio. A safra 2025 rendeu uma receita bruta de mais de R$ 14,5 bilhões diretamente aos produtores. A renda mensal per capita do produtor de tabaco é de R$ 3.935,40 e a do brasileiro médio é de R$ 1.625,00 (Pnad Contínua IBGE 2022). A renda do fumicultor por membro da família supera a do cidadão médio brasileiro em 142% (Perfil Socioeconômico dos Produtores de Tabaco da Região Sul do Brasil, 2023).
O nível socioeconômico dos produtores se destaca: 80,4% estão nas classes A e B. No Brasil, menos de 25% da população está nesse estrato social. A renda média mensal da família produtora de tabaco é de R$ 11.755,00 (incluindo a comercialização do fumo, a safra de grãos secundários, criações rústicas e eventuais aposentadorias). Apenas 5% dos produtores recebem algum benefício social (Bolsa Família ou auxílio educação).
A indústria do tabaco é composta por pequenas, médias e grandes empresas. Em Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires (RS) está um dos maiores complexos mundiais de processamento de tabaco, com conceitos modernos de produção e equipamentos industriais de última geração. A renda gerada nessa indústria é essencial aos municípios, garante empregos diretos e diversos indiretos.
Tributação alta, saúde pública e futuro da indústria
O cigarro legal é caro devido aos tributos. A tributação média sobre o cigarro no Brasil varia de 70% a 90%, conforme a composição dos tributos. No Paraguai, a carga tributária é muito menor, em torno de 13%. A disparidade tributária favorece a diferença de preços e amplia a competitividade do mercado ilegal. O mercado informal ganha força avassaladora.
Segundo dados do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade e do Instituto Ipsos, 31% dos cigarros aqui consumidos são ilegais (contrabando ou falsificação). Facções criminosas circulam por ano mais de 32 bilhões de cigarros ilegais. A evasão fiscal chega a R$ 8,5 bilhões anuais. Somadas as perdas das indústrias legalizadas, o prejuízo alcança R$ 10 bilhões. Com a inclusão do mercado clandestino de dispositivos eletrônicos e sachês de nicotina, estimativas citadas no setor elevam o total a R$ 13,7 bilhões anuais, segundo estudo da Universidade de São Paulo.
A legitimidade econômica e social da fumicultura não pode ser confundida com a inocuidade de seu produto. Segundo a OMS, o tabagismo é a principal causa de mortes evitáveis: 8 milhões/ano ou 22.000/dia. O tabagismo gerou um prejuízo total de R$ 153,5 bilhões por ano ao Brasil em 2022. Esse valor equivale a cerca de 1,55% do PIB, segundo o estudo “A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta” do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Em 2003, a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, primeiro tratado internacional de saúde pública da OMS, estabeleceu uma referência mundial para o controle do tabagismo. Seu artigo 17 prevê a promoção de alternativas economicamente viáveis para trabalhadores e produtores de tabaco. O desafio é enorme: 30 milhões de pequenos agricultores produzem 4,5 milhões de toneladas e dependem dessas lavouras como garantia de renda. O número de fumantes declina. Cerca de 1 em cada 5 adultos no mundo consome tabaco. Em 2000, era 1 em cada 3. Ainda assim, 1,25 bilhão de pessoas é fumante.
Caso o Brasil deixe de produzir tabaco, grandes concorrentes, como Estados Unidos e Zimbábue, poderão ocupar parte desse mercado. A fumicultura envolve dimensões agrícolas, industriais, sanitárias, sociais e econômicas complexas. Exige alternativas viáveis e negociadas. O tabaco faz parte do agro. Não pode seguir invisível. Nem aqui, nem alhures.






