O setor cafeeiro brasileiro está articulando uma estratégia para aproveitar as oportunidades do acordo entre União Europeia e Mercosul e enfrentar as exigências ambientais e sociais do mercado europeu. A agenda reúne o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), a ApexBrasil e associações do setor em Bruxelas, segundo Marcos Matos, diretor-geral do conselho.
Em entrevista ao CNN Agro News nesta terça-feira (13), Matos afirmou que as discussões buscam identificar como transformar as reduções tarifárias previstas no acordo em oportunidades comerciais e ampliar a presença do café brasileiro no bloco. A mobilização ocorre em um cenário de maior complexidade regulatória, com exigências relacionadas ao desmatamento, ao trabalho forçado e aos limites de resíduos químicos nos produtos agrícolas.
Preparação para a lei antidesmatamento Entre as principais preocupações está o Regulamento Europeu Antidesmatamento, conhecido como EUDR. A aplicação das principais obrigações está prevista para 30 de dezembro de 2026, com prazo adicional até junho de 2027 para micro e pequenos operadores. A norma exige que os produtos abrangidos não estejam associados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020.
Segundo Matos, empresas que compram café do Brasil trabalham com a expectativa de aplicação das regras no fim deste ano. Embora considere possível uma nova mudança de prazo por decisão política, o dirigente afirmou que o setor mantém os preparativos e acompanha as discussões sobre simplificação das exigências.
A inclusão do café solúvel no escopo da regulamentação também integra essa agenda. A Comissão Europeia anunciou a ampliação em julho deste ano. Para o diretor-geral do Cecafé, o processo reforça a necessidade de fortalecer e integrar as bases oficiais brasileiras, permitindo demonstrar a origem do produto e as condições em que foi cultivado.
Matos também apontou dificuldades na análise de propriedades com florestas plantadas, como áreas de eucalipto destinadas à produção de biomassa. Na avaliação dele, a forma como essas áreas são identificadas e avaliadas no cumprimento da EUDR pode levar a verificações mais detalhadas e gerar dificuldades para produtores. Outro desafio, segundo o dirigente, são alertas de desmatamento que precisam ser conferidos. Ele citou o Prodes e o MapBiomas ao abordar o monitoramento por satélite e afirmou que o setor trabalha com mecanismos de verificação por terceiros para avaliar possíveis inconsistências.
Rastreabilidade em larga escala A integração de dados governamentais, o uso de tecnologia e a cooperação entre empresas estão no centro da estratégia apresentada pelo Cecafé em um fórum internacional em Montreux, na Suíça, com representantes da Comissão Europeia e organizações ligadas ao comércio mundial de café. Segundo os dados apresentados pelo conselho, o Brasil exporta aproximadamente 71 mil contêineres de café por ano ao mercado europeu, com participação média de 150 produtores por contêiner.
Essa dimensão, de acordo com a entidade, exige sistemas capazes de verificar simultaneamente informações de centenas de propriedades. O desafio é atender às exigências de rastreabilidade sem transformar a comprovação da origem em uma barreira às exportações. As tratativas na Europa ocorrem desde setembro e também passaram por Genebra, segundo Matos.
Novas exigências e oportunidade de valorização Além da EUDR, o dirigente destacou a regulamentação europeia sobre trabalho forçado e as discussões sobre limites máximos de resíduos químicos, que, segundo ele, podem ter reflexos sobre os produtos utilizados na agricultura brasileira. A proibição europeia de comercializar produtos feitos com trabalho forçado será aplicada a partir de 14 de dezembro de 2027.
Apesar dos desafios, Matos vê uma oportunidade de ampliar o reconhecimento das práticas brasileiras e agregar valor ao café. Ele lembrou que, em 2024, compradores europeus anteciparam aquisições do produto brasileiro, movimento que associou às práticas ambientais já adotadas no país.
Na avaliação do diretor-geral do Cecafé, demonstrar essas práticas com dados confiáveis e comunicação clara pode ajudar a transformar a qualidade do café brasileiro em valor agregado e benefícios para os produtores.
Fonte: CNN Brasil






