O cenário para a agricultura brasileira aponta para uma vulnerabilidade ainda maior em relação ao suprimento de adubos e nutrientes para o solo. A projeção de novos desequilíbrios comerciais foi detalhada por lideranças do setor durante um debate focado nos grandes desafios do agronegócio nacional.
Crise no fornecimento de fosfatados
O reflexo mais grave recai sobre a cadeia produtiva dos fosfatados, fortemente penalizada pelo encarecimento do enxofre, elemento vital para separar o fósforo das rochas de origem. Especialistas apontam que a importação dessa matéria-prima deve encolher pela metade, paralisando a maior parte das unidades industriais locais.
“Nosso custo de produção é muito oneroso e a indústria se viu inviabilizada de continuar sua produção”, lamentou Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil, durante o evento “Vozes do Agro”. O executivo pontuou que o país dependia menos deste item específico antes que o fechamento do estreito de Ormuz, decorrente de conflitos geopolíticos, afetasse diretamente as rotas logísticas globais.
“Precisamos entender como minimizar o risco da escassez de fósforo no Brasil. A indústria, em sua grande maioria, está com atividades paralisadas”, alertou Monteiro, ressaltando que o mercado interno registra os menores estoques de passagem de sua história recente.
Barreiras para a produção nacional
Embora exista o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), o acesso aos recursos e incentivos ainda esbarra em regras burocráticas severas. A taxa de juros elevada no país também freia os aportes necessários para ampliar a infraestrutura voltada à mineração e ao refino desses insumos.
O deputado federal Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, destacou que o crédito caro afasta o interesse produtivo e criticou os entraves burocráticos associados ao licenciamento ambiental, que costumam atrasar projetos fundamentais para a soberania do setor.
Para o parlamentar, a meta governamental de assegurar um patamar mínimo de adubos nacionais nas misturas é considerada inviável no curto prazo. “Os custos de produção de fertilizantes são muito maiores e muito mais difíceis do que a importação desses produtos. É algo que a gente ainda vai levar muito tempo, não é nem [no] médio, mas [no] longo prazo, para conseguir ter essa produção aqui e reduzir essa dependência”, argumentou Lupion.
Impactos da geopolítica internacional
A instabilidade internacional compõe o que analistas classificam como um cenário desafiador para o campo, unindo juros elevados, volatilidade nas cotações de commodities e oscilações climáticas intensas. Com o encarecimento do frete e o bloqueio de rotas estratégicas, a dinâmica de compra precisou ser alterada, embora o risco continue elevado.
“O Brasil trocou de fornecedores, mas ainda está muito exposto. Poderia ser pior, é verdade. Mas está muito exposto”, avaliou Arián Krakov, sócio da Bain & Company, ao lembrar que o país ocupa a posição de terceiro maior receptor das exportações originárias do Golfo Pérsico.
Fonte: Globo Rural






