O protagonismo de duas trabalhadoras das águas brasileiras ganhou projeção internacional nesta quinta-feira (15), na Itália. A pernambucana Joana Rodrigues Mousinho, de 70 anos, e a liderança indígena baiana Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, de 44 anos, foram incluídas na lista global da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) que reconhece 100 mulheres transformadoras do desenvolvimento rural e dos sistemas agroalimentares.
Com trajetórias marcadas pela defesa das comunidades pesqueiras e pela preservação dos recursos naturais, as brasileiras foram indicadas pelo Ministério das Mulheres. A seleção final ocorreu em meio a um processo com mais de 600 participantes de 131 países, durante a realização do Fórum Mundial da Alimentação — evento que antecipa as diretrizes para 2026, instituído como o Ano Internacional da Mulher Agricultora.
Liderança indígena e organização no litoral baiano
Na região sul da Bahia, Luena Pataxó construiu uma atuação de destaque na defesa econômica e cultural do seu povo. À frente da Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), localizada no distrito de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, ela também comanda o Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul da Bahia, estrutura que articula 13 entidades em oito municípios.
O trabalho liderado por Luena viabilizou avanços práticos para quem vive da pesca de pequena escala, sobretudo na captura de camarão, ampliando a segurança das embarcações e gerando alternativas de renda. Essa articulação também alcançou a esfera federal com a criação do Grupo de Trabalho Indígena Nacional, inserido no Plano Nacional da Pesca Artesanal do Ministério da Pesca. Seu desempenho no setor rendeu premiações no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, vencendo a etapa estadual e alcançando a terceira posição nacional como Produtora Rural.
Ao abordar o reconhecimento global, a líder indígena ressaltou o sentido coletivo da conquista.
“É uma honra ter o reconhecimento internacional da luta do meu povo indígena, que não é de hoje, e é diária. A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas. Somos os guardiões do meio ambiente”, afirma.
A pescadora complementa destacando a relação entre a tradição de seu povo e o manejo sustentável das águas: “A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar”, diz.
A força feminina na produção de alimentos
A homenagem também coroa a dedicação de Joana Rodrigues Mousinho, que acumula mais de seis décadas dedicadas à atividade marítima em Pernambuco. No cenário nacional, ambas integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras, voltado a impulsionar os direitos das trabalhadoras do setor.
Dados divulgados pela FAO apontam que as mulheres compõem 41% da mão de obra empregada em sistemas alimentares no mundo. Contudo, apesar do papel essencial que exercem no cultivo, processamento e distribuição de comida, essa parcela da população ainda convive com barreiras no acesso a direitos e empregos em condições precárias.
“A escolha de Joana Mousinho e Luena Pataxó reflete não apenas suas realizações individuais, mas também o compromisso do Brasil com o fortalecimento das mulheres agricultoras e pescadoras, empreendedoras, lideranças comunitárias e agentes de transformação dos sistemas agroalimentares”, afirma Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.
Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o reconhecimento também reforça a importância de garantir que as pescadoras participem das decisões sobre as políticas públicas que afetam suas vidas. “Reconhecer Joana Mousinho e Luena Pataxó é dar visibilidade ao trabalho das mulheres da pesca artesanal, que alimentam nossas comunidades, protegem os territórios e preservam conhecimentos tradicionais”, afirma.
Fonte: CNN Brasil






