Emissões da agropecuária ficam estagnadas no Brasil em 2025

Brasil reduz emissões, mas agro ainda enfrenta desafios

O setor agropecuário brasileiro registrou um comportamento atípico em 2025 ao manter suas emissões de gases de efeito estufa praticamente congeladas, mesmo diante de sucessivos recordes na colheita de grãos. O segmento liberou 626,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) na atmosfera, marcando uma discreta redução de 400 mil toneladas em relação ao ano anterior. Trata-se do menor índice de oscilação anual observado desde o começo do monitoramento histórico, em 1970.

Contraste interno entre pecuária e lavoura

A aparente calmaria nos números brutos encobre dinâmicas opostas dentro da porteira. Enquanto a atividade pecuária apresentou retração em sua pegada de carbono, as lavouras intensificaram a liberação de gases em função da maior dosagem de insumos e do avanço das plantações de soja, milho e arroz irrigado. Fontes como a aplicação de adubos nitrogenados, a calagem dos solos, o manejo de dejetos de animais e a decomposição de matéria orgânica vegetal tiveram altas expressivas.

De acordo com Gabriel Quintana, coordenador de Ciência do Clima do Imaflora, a criação de animais foi responsável por 78,9% de todo o CO₂e emitido pelo setor em 2025, cabendo à agricultura os 21,1% restantes. A fermentação entérica do gado segue como o principal calcanhar de aquiles do segmento, concentrando quase dois terços do montante global do agro.

A diminuição das taxas da pecuária esteve atrelada à contração de 1,7% no rebanho de bovinos, motivada pelo ciclo de abates elevados, principalmente de fêmeas. Quintana alerta que a recomposição do plantel nos próximos anos pode voltar a pressionar o indicador, tornando fundamental a aposta em melhoramento genético e suplementação nutricional de precisão para segurar novas altas.

Na divisão geográfica, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e Pará lideraram a lista de estados emissores, com o Cerrado ocupando o posto de bioma com maior participação setorial. As taxas caíram no Pampa e na Amazônia, mas subiram no Pantanal, na Caatinga e na Mata Atlântica.

Manejo sustentável e estoque de carbono no solo

Dados complementares apresentados pelo levantamento mostram que a adoção de tecnologias conservacionistas, como o plantio direto, a recuperação de áreas degradadas e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), sequestrou cerca de 160,9 milhões de toneladas de carbono da atmosfera.

Quando esse armazenamento de carbono orgânico e as queimadas não associadas ao desmatamento entram na equação, o saldo líquido do agronegócio recua para cerca de 466 milhões de toneladas de CO₂e — um patamar 25,6% inferior às emissões brutas oficiais. Houve ainda uma redução expressiva de quase 72% na área de pastagens atingida pelo fogo, o que derrubou a liberação de gases dessa fonte de 2 milhões para 500 mil toneladas entre 2024 e 2025, com incidentes concentrados no território amazônico.

Queda do desmatamento puxa balanço nacional

No panorama geral do país, as emissões brutas encolheram mais de 6% em 2025, totalizando 2,06 bilhões de toneladas de CO₂e e consolidando o terceiro recuo anual consecutivo. Frente a 2022, quando o volume atingiu 2,72 bilhões de toneladas, o tombo acumulado chega a aproximadamente 24%.

A pesquisadora Barbara Zimbres, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), apontou que o combate à derrubada da vegetação nativa responde pela maior fatia dessa evolução positiva. As emissões brutas vinculadas ao uso da terra despencaram 15% em 2025 — passando de 957 milhões para 814 milhões de toneladas —, sendo que o desmatamento respondeu por 87% desse total. Amazônia (57%), Cerrado (26%) e Mata Atlântica (10%) lideraram os registros territoriais dessa categoria.

Graças à regeneração de matas secundárias e à preservação de unidades de conservação, que absorveram 652 milhões de toneladas, o saldo líquido desse segmento fechou em 162 milhões de toneladas, a marca mais baixa da série histórica.

Energia e resíduos sobem na contramão

Apesar da melhora florestal, outros setores produtivos registraram trajetórias ascendentes. David Tsai, coordenador da iniciativa, destacou que o ritmo de redução não é homogêneo na economia brasileira.

As atividades de energia e processos industriais emitiram 521 milhões de toneladas em 2025, alta de cerca de 1%, segundo dados detalhados por Ingrid Graces, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). O setor de transportes bateu recorde com 228 milhões de toneladas, muito embora a participação conjunta de etanol e biodiesel tenha alcançado a fatia recorde de 26% na matriz de combustíveis. Paralelamente, o tratamento de efluentes e a destinação de lixo urbano fizeram as emissões de resíduos avançarem 3,6%, segundo levantamento de Iris Coluna, do ICLEI América do Sul.

Metas para 2030 e neutralidade climática

Com as remoções vegetais computadas, as emissões líquidas do Brasil ficaram ligeiramente acima de 1,4 bilhão de toneladas de CO₂e. O número não atingiu por completo a meta fixada de 1,32 bilhão para 2025, cumprindo aproximadamente 91% do esforço programado.

As projeções preliminares apontam para 1,226 bilhão de toneladas em 2026 e traçam como referência o teto de 1,2 bilhão até 2030, mirando a descarbonização total até 2050. Diante desse calendário, a agropecuária precisará acelerar a transformação de boas práticas agrícolas em mitigação consistente para que a ampliação produtiva não comprometa os compromissos climáticos do país.

Fonte: AgroRevenda

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